Thursday, April 27, 2023

Dia 1 - 21 de Abril

Estava a chover.

R. tinha saído mais cedo do trabalho, deixado coisas a meio, tarefas pendentes. Nada importava a não ser a ânsia que tinha de partir. O dia tinha chegado. O dia em que finalmente ia ter à sua frente a pessoa que lhe tinha preenchido o coração durante os últimos meses. As pessoas falavam mas eram meros ecos nos seus ouvidos. Correra para casa, terminara a mala, debaixo de chuva a colocara na mala do carro. Pé no acelerador, voando até Lisboa, ia trocando mensagens com A. O seu A. Ele tinha aterrado, ele estava em Portugal. Nunca tinha estado tão perto. Os dois corações batiam agora a menos de 70 km de distância. Estava tudo bem, A. ia para o hotel. Menos de 60 km. A. estava no hotel e queria tomar um banho mas o quarto ainda não estava pronto. Alguma irritação porque se tinha pedido que estivesse pronto a essa hora. 50 km. R. achava desnecessário que A tomasse banho, só o queria ver, só queria correr para ele. Mas estava nervoso. Chovia e os planos que tinham feito, de se encontrarem no Jardim da Gulbenkian, pareciam agora menos exequíveis. R. olhava para o saco a seu lado no banco onde levava um novelo de lã vermelha, um livro e um mamute de peluche. Como iria A. reagir? 40 km. O quarto ainda não estava pronto. Estava a chegar a Lisboa e ia esperar por ele. À chuva, ao vento, até no meio de um furacão. Estava quase lá.

E foi assim que aconteceu:

R. chegou ao jardim e a chuva foi-se intensificando. Procurou um lugar abrigado e seco onde pudesse esperar por A. mas não encontrou. Deu uma volta inteira ao jardim e decidiu esperar debaixo de uma árvore em frente ao lago. Havia peixes a brincar à superfície. Tirou foto e enviou para A. Ele tinha conseguido o quarto e tinha trocado de roupa. Vinha a caminho, de uber. Combinaram encontrar-se à porta do museu, uma vez que A. não tinha internet no celular e por isso não iria conseguir comunicar quando chegasse. R. tinha deixado um SIM para ele no hotel mas A. não tinha um alfinete para abrir o telefone e colocar o SIM lá dentro. R. deslocou-se para a porta do museu. Sentou-se e esperou. Passavam carros que deixavam pessoas sair e a cada um o seu coração batia mais célere. R. não sabe como mas quando surgiu aquele carro branco a fazer a curva, houve uma certeza de que era aquele. Claro que o seu príncipe encantado estava a chegar no cavalo branco. Ele saiu, com ar meio desajeitado, um sorriso rasgado no rosto. Ele estava ali. Em carne e osso. Era ele, o seu A., que caminhava para ele a passos largos. Cada vez mais próximo do que alguma vez tinha estado. R. sorria descontroladamente, cobria a cara por não conseguir acreditar no que estava a acontecer. Ele tinha vindo MESMO. Ele estava ali. Disseram olá. R. perguntou se podia dar-lhe um abraço e abraçaram-se pela primeira vez. R. sentiu o cheiro do seu A. pela primeira vez, a maciez da sua roupa. Estavam juntos. Estavam finalmente juntos.

Sem saber o que dizer, R. voltou-se para pegar nas suas coisas. Abriu o chapéu de chuva e perguntou se A. gostaria de passar pelo jardim. Chovia muito, mas assim foram os dois. Braço no braço, juntinhos. Juntos deram os primeiros passos e iam-se encharcando em água e sentimentos à medida que iam avançando. De que falaram? Será que A. se lembra? Das plantas, dos patinhos, do frio, da chuva. Havia pessoas que passavam a fugir, adolescentes tontos que se riam de coisas sem graça. Pararam no anfiteatro ao ar livre. Uns momentos estiveram sozinhos naquele palco redondo. Houve uma primeira troca de olhar expectante. Depois apareceram mais pessoas. Prosseguiram até ao carro. Pareceu uma eternidade chegar até lá. Quando desceram para o parque de estacionamento subterrâneo, A. tinha o casaco todo molhado, ambos as calças escuras de água. Para onde ir? A. não tinha muita fome mas R. sim. Resolveram ir para o Colombo e se esconderem lá da chuva. Assim foi. Entraram no carro. A. estava no banco onde R. sempre imaginou que estaria. Como explicar o que é ver uma fantasia, um sonho se materializar perante os nossos olhos? Ele era tão real. Às vezes notava pequenas diferenças entre a imagem que tinha dele antes e o que tinha agora à sua frente. Mas essas diferenças eram enriquecedoras. Podia tocar-lhe! Mas não ousava... Era tão precioso para ele.

O trânsito estava impossível e chovia muito. Lisboa era cinzenta e triste, mas dentro do seu coração, R. tinha todas as cores do universo. Chegaram e estacionaram. De que foram falando no caminho? Saíram do carro e entraram no centro comercial. R. recebeu uma chamada de trabalho ao entrarem. Não devia ter atendido. Arrependeu-se muito de o fazer, de ter desperdiçado aquele tempo. A meio da chamada, apercebendo-se do que estava a fazer, desligou o telefone na cara da sua chefe e colocou-o em modo de avião. Não queria saber. A. estava ali, perto dele, nada mais importava na vida. 
A primeira loja onde entraram foi na Zara e foi ali que R. viu A. pela primeira vez às compras. O olhar de apreciação, as coisas para as quais gravitava, como tocava os tecidos para perceber a sua qualidade. Queria comprar uns ténis de cor clara. Olhou alguns que estavam em exposição por baixo das roupas, mas não os achou de boa qualidade. Saíram para a área de restauração e deram uma volta para ver o que havia. R. estava com vontade de comer num restaurante tex-mex do qual tinha boas memórias. Não era nada de especial, mas estavam ambos cansados, pelo que pediram e sentaram. Primeira refeição juntos. O nervosismo impediu R. de comer muito e A. brincou com ele, como tinha mais olhos que barriga. Oh, momentos tão simples que se recordam agora como sendo de ouro! Como caem as lágrimas em fio de pensar que nunca vão acontecer outra vez. É melhor fazer uma pausa.

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Após o almoço A. quis tomar café e comer um pastel de nata. Pastel de nata de centro comercial, banal, normal, mas estava em Portugal e queria um pastel de nata. Não tinha sido grande fã no passado, mas gostou daquele. Comeram os dois um pastel de nata. R. recorda-se da mesa onde se sentou, em frente dele. O seu querido A. estava ali a comer um pastel de nata com ele, ainda meio encharcado da chuva que tinham apanhado. Foram ver lojas. Percorreram várias. Foram à Lefties, viram "camisetas", viram "blusas". "Este é um estilo mais urban", "imagine só você vestindo isso". Iam sorrindo com as possibilidades, meio desconfortáveis ainda com o contacto próximo um do outro. De loja em loja, C&A, H&M... Desceram em escadas rolantes. Provaram roupa. Timidamente, R. provou calças que mostrava A. Ali estava A. a despir-se por trás da cortina. E sentia que já o conhecia há 100 anos, mas ao mesmo tempo que era alguém que acabara de conhecer. Havia umas calças cor-de-rosa com as quais R. brincou. Compraram roupa. Entraram em lojas de decoração. Procuravam castiçais. Ali estavam os dois às compras. Foram à loja da MI à procura de um carregador para o smartwatch de R. Não havia. Foram ao supermercado comprar água. A. ia falando de vídeos que via no youtube sobre uma islandesa que ajudava as pessoas na organização das suas casas e fazia publicidade a umas esponjas de limpeza chamadas Scrub mommy. R. nunca tinha ouvido falar de semelhante coisa, mas A. contava poder encontrar esse produto em Portugal. E, assim, ali estavam os dois, às compras no supermercado, procurando produtos de limpeza, como se fizessem compras para a sua casa, para o lar que partilhavam em sonhos. É melhor outra pausa aqui para controlar as lágrimas.

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Houve risos porque não encontravam a secção dos produtos de limpeza. "Em Portugal não fazem limpeza." Houve desilusão porque não havia Scrub mommy. Foram buscar água, viram vinhos. A. estava muito cansado, arrastava os pés, mas perseverava. R. sentia que ele queria estar ali, que queria viver aqueles momentos com ele. Faltava comprar o alfinete para abrir o telefone de A. Onde encontrar um alfinete no meio de tanta coisa? Parecia uma metáfora tornada realidade. Na verdade, era como A. tinha dito: milhões de pessoas no mundo e eles tinham-se encontrado um ao outro. R. questionou um funcionário que os direcionou para o sítio certo. Escolheram alfinetes. R. ainda os tem. Saíram. 
Lá fora ainda chovia muito. Estavam os dois lado a lado no carro outra vez. R. nem se recorda bem do que caminho que levaram. A segunda circular estava apinhada de carros parados, um mar de luzes vermelhas, imóveis, deixando que a chuva caísse sobre elas. O waze redirecionou-os por Telheiras. Chegaram ao hotel Radisson Blu e já não chovia. Estacionaram. Colocaram dinheiro no parquímetro. Entraram. R. já ali tinha estado na semana anterior para deixar o SIM para A., mas estar ali com ele era como estar noutro mundo. Subiram para o quarto, o quarto de ambos, 806, a cama dos dois. Era o espaço que iam partilhar, o espaço que seria da sua intimidade. Descansaram sobre a cama, R. arrumou e pendurou as suas roupas. Ali estavam os dois na cama, descansando, R. fitando o rosto de A. como se fosse a maior obra de arte que já vislumbrara. R. lembra-se de falarem de tatuagens, de A. lhe mostrar a tatuagem com a forma de Ilhabela no pé, de lhe mostrar fotos de outras tatuagens que pensava fazer. Discutiram os traços. R. não gostava muito dos modelos que A. estava a considerar. Ouviram música, viram as notícias na televisão. R. estava nas nuvens por estar ali deitado ao lado do seu grande amor, mas não queria parecer demasiado deslumbrado. Olhava longamente nos olhos de A., o qual ia timidamente desviando o seu, como se tivesse receio de que as coisas evoluíssem demasiado depressa. Mas R. só tinha carinho, só tinha felicidade, estava satisfeito por estar apenas ali, tocando levemente no braço dele com a cabeça, sentindo o seu calor.
Com alguma dificuldade conseguiram abrir o telefone de A. e colocar lá dentro o SIM português. A. teve dúvida no código para desbloquear o telefone, mas R. mostrou-lhe que o telefone estava a pedir o código PIN do SIM. Raspou com cuidado o cartão e revelou o código 4632. Inseriram e resultou.


Apesar de A. estar muito cansado, decidiram tomar banho e sair para jantar. Procuraram opções no TripAdvisor. Italiano? Japonês? Decidiram-se por italiano e escolheram um restaurante no Parque das Nações chamado La Rucula. R. lembra-se de esperar que A. saísse do banho e de se sentir já tão íntimo daquela pessoa. Ali estava ele a vestir-se, a passar uma camisa a ferro, de boxers, a preparar-se para sair, a lavar os dentes, a colocar perfume. O seu A. Que sonho que era estar ali com ele. Que sorte tão grande que ele tinha. E que visão era aquela! A. a passar a ferro encheu-lhe o coração com uma ternura tão grande, tão indescritível. Aquele homem tão especial, tão novo para ele, cuidando da sua imagem, preocupado com a sua imagem, querendo estar bonito, querendo estar bem para o jantar que ambos iam partilhar. R. sempre fora mais descuidado, por vezes um pouco desleixado. Teve vontade de fazer melhor, de SER melhor. Por ele. Para ele. Para estar à sua altura, para que ele gostasse de estar ali. Acabou por ceder ao sentimento e passou também a sua própria camisa. A camisa azul, que era a camisa da primeira foto que alguma vez lhe enviara de si próprio.
Quando estavam prontos, saíram os dois e chamaram um Uber. O primeiro jantar juntos, o primeiro date. Que excitação que era tudo aquilo. No caminho para o elevador, A. reconheceu a camisa que ele levava vestida. Riram os dois. A. queria que R. fizesse a mesma cara que tinha na foto, o mesmo olhar artificial. R. estava feliz, tão feliz. Riram muito. A noite tinha caído sobre Lisboa mas já não chovia. No Uber tocava uma música que parecia uma mistura de New age e Techno e que A. disse fazê-lo lembrar de uma série de televisão que costumava ver. Queria saber o nome e tentou abrir uma aplicação do telefone para tentar identificar qual era, mas o telefone que tinha trazido era o da empresa e não tinhas as suas aplicações instaladas. Curiosamente, o condutor do Uber ia tomando atenção ao que eles dizíamos e abriu o Shazam no seu próprio telefone, identificando a música e passando essa informação a A. 

Chegaram perto das 21h. A rua era repleta de restaurantes cheios de pessoas animadas. A. e R. saíram do carro e contornaram os edifícios para chegar à porta de entrada do restaurante, a qual ficava de frente para o rio. Era noite e o rio não se via bem por entre as árvores, mas R. garantiu a A. que ele ali estava. O restaurante estava cheio. Não havia mesa dentro, apenas na esplanada, e A. estava com frio, tremia. R. brincou várias vezes com ele durante aqueles dias, pois ficava com frio facilmente e cruzava os braços de forma adorável a tentar aquecer-se. A empregada de mesa explicou-lhes que iam vagar mesas dali a pouco tempo porque a maioria dos clientes tinha bilhetes para ver Seu Jorge no Altice Arena dali a cerca de meia hora. Aceitaram esperar por mesa cá fora e, de facto, não tiveram de esperar muito tempo. "Estes meninos, se quiserem, podem vir para dentro." A. gostava da empregada de mesa. "Deve ser brasileira", brincou. Sentaram-se frente a frente. Resolveram pedir um vinho, escolhido por A. Massa e vinho. Tinha sido esse um dos pedidos de A. para aquela viagem. Pediram uma bruschetta para entrada. Não sendo espetacular, o restaurante era bem agradável. A bruschetta era como o restaurante em si. Não era fantástica, na verdade até tinha um aspeto bem decepcionante - um pedaço de pão branco torrado, embebido em azeite e com alguns tomates cherry à volta; mas o sabor não era mau. A. gostou do azeite. Falaram de azeite, da produção de azeite em Portugal, da produção de cortiça. A. referiu que quando pensava em Portugal pensava em bacalhau e quis saber em que pensava R. quando pensava no Brasil. Frutas tropicais? Carne? Açúcar, café... Falaram de muitas coisas, do tempo sabático de A. depois desistir da faculdade de medicina, falaram das diferenças entre os sistemas educativos no Brasil e em Portugal. Um pouco de política, um pouco de economia. R. pediu tagliatelle alla carbonara, mas não recorda bem o que pediu A. (talvez ele se lembre?). Foi um jantar que passou rápido, com a conversa fluindo, o vinho também. R. não estava habituado àquilo e já se ia sentindo um pouco tonto, o que deixou A. com um sorriso no rosto.
Pediram mousse de chocolate para sobremesa. Duas colheres para uma taça, como sugerido pelo empregado de mesa. Ao longo daqueles dias, mesmo sem grandes manifestações públicas de afeto, as pessoas percebiam, as pessoas davam conta, era visível para todos que aquelas duas pessoas estavam apaixonadas, estavam ali uma para viver a outra. Não era preciso explicar, não era preciso denunciar. Simplesmente, eles era uma unidade aos olhos dos outros. A. adorou a mousse de chocolate e comeu a maior parte, mas a última colherada foi roubada por R. de forma matreira. "E você não queria sobremesa, estava cheio!". Ambos sentiam que havia uma cumplicidade que se estava a consolidar. Ao início, tinha sido difícil para ambos ver no outro a mesma pessoa com quem tinham falado por escrito durante tantos meses. Havia diferenças naquilo que esperavam um do outro. A. referiu várias vezes que R. tinha a cabeça mais pequena do que ele esperava. Curiosamente, R. achava o mesmo em relação a A. Mas, gradualmente, estavam a personificar no outro a pessoa que conheciam, a encarnar no corpo que tinham à sua frente as memórias, a alma daquela pessoa por quem se tinham apaixonado. E estava a ser fácil, bem mais fácil do que R. tinha pensado.

Depois do jantar resolveram dar um pequeno passeio à beira-rio, mas estava frio. A. tremia novamente. R. confessou-lhe que se estava a sentir muito próximo dele e que durante vários momentos naquele dia tinha sentido vontade de lhe pegar na mão e caminhar assim com ele. A. manteve-se em silêncio, deixando que R. lhe pegasse na mão por uns breves e desconfortáveis instantes. R. não pressionou, mas não se sentiu rejeitado. Acima de tudo, queria que A. estivesse feliz. Percorreram o caminho das bandeiras, parando nas bandeiras de Portugal e do Brasil, ambas já bastante rasgadas pelo vento. Havia um "espelho de água" em frente às bandeiras e A. ensinou a R. a expressão "espelho de água". Passaram pela enorme escultura do lince ibérico feito de material reciclado, ao qual A. achou alguma piada. Depois, para se refugiarem do frio, entraram, já perto da meia noite, dentro do Centro Comercial Vasco da Gama. As lojas ainda estavam todas abertas e A. ficou felicíssimo por ter mais um oportunidade de fazer compras. Entraram em algumas lojas, mas R. já não se lembra em quais, a não ser numa loja de óculos de sol. Tentar comprar óculos de sol no Vasco da Gama era algo que tinha feito parte do plano inicial e por isso R. ficou feliz de o estarem a fazer. Estava cansado, mas A. tirava este e aquele par de óculos da prateleira, dava dicas, experimentava, sorria, dava sugestões. Ele era mágico. R. provavelmente experimentou todos os pares de óculos masculinos que existiam naquela loja. Finalmente, achando o preço muito elevado, foram embora. R. levou A. para a estação de metro e tiraram bilhetes. R. recorda que A. teve dúvidas em como passar o bilhete para abrir a cancela de acesso à plataforma. Foram falando e falando. Estavam juntos! Da estação do oriente até à estação de Alameda, saindo nessa. A. tinha pensado que era a estação final, mas ainda tinham de apanhar outro comboio até ao Campo Grande. Quando chegaram à plataforma da linha verde R. reparou num cartaz que anunciava que, por motivos de obras, a estação de Campo Grande estava encerrada naquela semana, pelo que Alvalade seria estação terminal. Entraram no comboio e R. foi falando como aquela linha lhe era familiar, pois vivera ali tantos anos... Na estação de Roma disse a A. que aquela era a estação da casa onde morara muito tempo e parecia que sempre que R. mostrava lugares do seu passado que A. ainda se tornava mais atento, abrindo muito os olhos e tentando absorver o próprio ar à sua volta, imaginando os vultos espectrais da presença passada de R. naqueles sítios. E agora ele estava ali e tornava-se parte dessa história.


Quando chegaram a Alvalade tiveram mesmo de sair e, uma vez cá fora, chamaram um Uber em frente ao Cinema City que os levou de volta ao Radisson. Que triste que é já não lembrar os pormenores das coisas que falaram durante esses momentos. Há outros, porém, que por muito que se tentasse, nunca se esqueceriam. E aquela noite foi um desses momentos. Subiram juntos para o quarto, ainda tímidos, ainda sem saber o que os esperava, como iriam ser aqueles dias. A. foi lavar os dentes e depois, de pijama, deitou-se na cama. R. fez o mesmo e, depois de alguns instantes, A. sorriu e disse que ia começar ele a troca de presentes. 

Dia 1 - 21 de Abril

Estava a chover. R. tinha saído mais cedo do trabalho, deixado coisas a meio, tarefas pendentes. Nada importava a não ser a ânsia que tinha ...